Ano 11| Nr.98 |Jul. 2026

Calor extremo e Medicina do Viajante: integrar o risco térmico na consulta pré-viagem
As alterações climáticas estão a transformar profundamente a Medicina do Viajante. Para além do impacto já reconhecido na distribuição geográfica das doenças transmitidas por vetores, o aumento da frequência, intensidade e duração das ondas de calor tornou o risco térmico uma preocupação incontornável na avaliação pré-viagem.
A Região Europeia é atualmente a região do planeta que mais rapidamente aquece, a um ritmo aproximadamente duas vezes superior à média global. O calor extremo deixou de constituir um fenómeno excecional para passar a representar um risco previsível e, em grande medida, prevenível em inúmeros destinos turísticos, profissionais, religiosos e desportivos. Não se trata de um cenário futuro. É uma realidade presente.
Existe, contudo, um momento privilegiado para antecipar esse risco: a consulta pré-viagem.
Em junho de 2026, a Organização Mundial da Saúde publicou a segunda edição do Heat–Health Action Plans: Guidance, documento que constitui hoje a principal referência internacional para a preparação dos sistemas de saúde perante episódios de calor extremo. Apesar de estar dirigido aos decisores e aos sistemas de saúde, o documento transmite uma mensagem particularmente relevante para a Medicina do Viajante: a prevenção começa antes da exposição.
A consulta pré-viagem continua a ser, muito provavelmente, o único momento estruturado em que um profissional de saúde pode avaliar individualmente o risco, identificar fatores modificáveis e preparar o viajante para enfrentar um ambiente potencialmente hostil.
De risco excecional a risco previsível
Durante décadas, a consulta pré-viagem centrou-se, legitimamente, na prevenção das doenças infeciosas. Identificámos riscos epidemiológicos, atualizámos esquemas vacinais, prescrevemos quimioprofilaxia e ensinámos medidas de proteção contra vetores.
Continuaremos a fazê-lo.
Contudo, o calor extremo passou a integrar o conjunto dos riscos previsíveis que importa avaliar sistematicamente. Ao contrário de muitos outros perigos associados às viagens, a doença relacionada com o calor é frequentemente evitável através da identificação precoce dos fatores de risco, da adaptação dos comportamentos e da implementação de medidas preventivas simples, mas altamente eficazes.
Quatro pilares para avaliar o risco térmico
A integração do risco térmico na consulta pré-viagem pode estruturar-se em quatro perguntas fundamentais.
1. O destino
A temperatura máxima prevista constitui apenas uma parte da avaliação. Importa igualmente considerar a temperatura mínima noturna, a humidade relativa, o índice de calor, o índice UV, a qualidade do ar, o risco de incêndios, a disponibilidade de água potável, o acesso a espaços climatizados e a acessibilidade aos cuidados de saúde.
O impacto fisiológico do calor depende da combinação entre temperatura e humidade. Um ambiente tropical a 34 °C com elevada humidade pode representar um risco superior ao de um ambiente desértico a 42 °C. Da mesma forma, o efeito de ilha de calor urbana pode transformar profundamente o risco associado a um determinado destino.
2. O viajante
A vulnerabilidade ao calor varia significativamente entre indivíduos.
Devem ser particularmente valorizados fatores como idade igual ou superior a 65 anos, infância, gravidez, obesidade, doença cardiovascular, doença renal crónica, diabetes mellitus, doença respiratória ou neurológica, imunossupressão, limitação funcional e antecedentes de doença relacionada com o calor.
Nenhum destes fatores contraindica, por si só, uma viagem. Todos justificam uma avaliação mais individualizada e, quando necessário, adaptações do itinerário, da época da viagem ou dos horários de maior exposição.
À medida que a população envelhece, o viajante do futuro será, cada vez mais, um doente crónico. Esta realidade deverá moldar inevitavelmente a prática da Medicina do Viajante.
3. A medicação
A revisão terapêutica continua a ser um dos aspetos mais frequentemente subvalorizados da consulta pré-viagem.
Diversos medicamentos podem comprometer os mecanismos de termorregulação, favorecer a desidratação ou aumentar o risco de hipotensão, alterações hidroeletrolíticas e lesão renal aguda durante episódios de calor extremo.
Entre os grupos farmacológicos que merecem particular atenção incluem-se os diuréticos, os inibidores da enzima de conversão da angiotensina, os antagonistas dos recetores da angiotensina II, os betabloqueadores, os anticolinérgicos, os antidepressivos tricíclicos, os inibidores seletivos da recaptação da serotonina, os antipsicóticos, as benzodiazepinas e o lítio.
Na maioria dos casos, estes medicamentos não devem ser suspensos ou alterados antes da viagem. O objetivo consiste em identificar os viajantes que necessitam de maior vigilância, reforçar a educação para a hidratação adequada e reconhecer precocemente situações que justifiquem observação médica.
Importa ainda abordar a conservação correta dos medicamentos termolábeis, nomeadamente insulinas, agonistas do recetor GLP-1, medicamentos biológicos e adrenalina autoinjetável, garantindo o cumprimento das recomendações específicas de armazenamento durante toda a viagem.
4. As atividades previstas
O risco térmico depende igualmente da natureza da viagem.
Caminhadas prolongadas, trekking, peregrinações, turismo de aventura, eventos desportivos, festivais ao ar livre ou trabalho em ambiente exterior aumentam significativamente a exposição.
Sempre que possível, recomenda-se que as atividades fisicamente mais exigentes decorram nas primeiras horas da manhã ou ao final da tarde, privilegiando períodos de menor carga térmica. Deve igualmente ser respeitado o processo de aclimatização, que habitualmente requer entre sete e catorze dias, sendo precisamente os primeiros dias aqueles em que o risco de doença relacionada com o calor é mais elevado.
Reconhecer precocemente a doença relacionada com o calor
Preparar o viajante significa também capacitá-lo para reconhecer os primeiros sinais de alarme.
A doença relacionada com o calor constitui um continuum clínico que evolui desde as cãibras e a síncope até à exaustão pelo calor, culminando no golpe de calor, uma emergência médica tempo-dependente caracterizada por hipertermia e disfunção do sistema nervoso central.
O principal determinante do prognóstico é o intervalo até ao início do arrefecimento. A mensagem operacional é simples e deve ser claramente transmitida ao viajante: arrefecer primeiro, transportar depois.
Uma Medicina do Viajante mais integrada
O calor extremo não constitui um fenómeno isolado.
As mesmas alterações climáticas que aumentam a exposição ao calor estão igualmente a modificar a epidemiologia das doenças transmitidas por vetores, favorecendo a expansão da dengue, chikungunya, Zika, vírus do Nilo Ocidental e encefalite transmitida por carraças para novas latitudes e períodos do ano, incluindo na Europa.
A avaliação do risco deixa, assim, de poder basear-se em mapas históricos de endemicidade. Exige uma leitura dinâmica da situação epidemiológica e ambiental do destino.
A Medicina do Viajante evolui, por isso, para uma abordagem verdadeiramente integrada, que combina riscos infeciosos, ambientais, climáticos e comportamentais, em consonância com os princípios da One Health e da Planetary Health.
Algumas considerações finais
O calor extremo constitui hoje um dos principais riscos ambientais associados às viagens internacionais e deverá integrar, de forma sistemática, a consulta pré-viagem, particularmente em viajantes vulneráveis ou com destino a regiões de elevada carga térmica.
A avaliação estruturada do destino, das características individuais do viajante, da medicação habitual e das atividades previstas permite identificar fatores de risco modificáveis e implementar medidas preventivas simples, eficazes e baseadas na evidência.
O objetivo da Medicina do Viajante nunca foi desencorajar a viagem. O seu propósito é torná-la mais segura.
Fica, por isso, um convite a todos os colegas: na próxima consulta pré-viagem, quando perguntarem o destino, a época do ano e o tipo de atividades previstas, olhem também para essas respostas através da lente do risco térmico. Pequenas mudanças na avaliação clínica podem traduzir-se numa diferença significativa para a segurança do viajante.
A Sociedade Portuguesa de Medicina do Viajante reafirma o seu compromisso com a formação contínua, a investigação e a divulgação das melhores práticas, contribuindo para uma Medicina do Viajante cada vez mais integrada, moderna e preparada para responder aos desafios de um mundo em rápida transformação.
O termómetro entrou definitivamente na consulta pré-viagem. Cabe-nos garantir que veio para ficar, não como símbolo de uma nova ameaça, mas como instrumento de uma medicina mais completa, preventiva e centrada na pessoa.
Com uma saudação cordial a todos os sócios
Gabriela Saldanha
Referências bibliográficas
FICHA TÉCNICA
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