Ano 11| Nr.99 |Ago. 2026

Shigelose: o regresso de uma infeção que continua a preocupar os viajantes
Nos últimos meses, a Shigelose voltou a merecer destaque na vigilância epidemiológica internacional. O motivo? A persistência de um surto multicêntrico associado a viajantes regressados de Cabo Verde, que já motivou centenas de notificações em diversos países europeus, incluindo Portugal, e levou o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) a renovar os alertas dirigidos aos profissionais de saúde e aos viajantes.
Apesar de muitas vezes ser encarada apenas como mais um episódio de "diarreia do viajante", a Shigelose continua a representar um desafio importante. A elevada capacidade de transmissão, a baixa dose infeciosa necessária para causar doença e o aumento das resistências aos antibióticos fazem desta infeção uma preocupação crescente para a Medicina do Viajante.
Um surto que persiste
O atual surto teve início em 2022 e continua ativo. Desde 2022 foram notificados mais de mil casos de Shigelose e outras infeções gastrointestinais em viajantes regressados de Cabo Verde, sobretudo da região de Santa Maria, na ilha do Sal. Embora a origem exata permaneça por identificar, os dados epidemiológicos apontam para uma provável transmissão através de alimentos ou água contaminados, sem excluir a transmissão pessoa a pessoa.
Este cenário relembra que mesmo destinos turísticos muito procurados, com unidades hoteleiras de elevada qualidade e regime "all inclusive", não estão isentos de surtos alimentares.
Porque é que a Shigella merece atenção?
A Shigella distingue-se de outros agentes entéricos pela sua reduzida dose infeciosa, sendo suficientes cerca de 10–100 microrganismos para causar infeção, o que explica a sua elevada transmissibilidade.
O quadro clínico manifesta-se habitualmente com febre, dor abdominal e, em muitos casos, sangue ou muco nas dejeções. É habitualmente autolimitada, com duração entre 5 e 7 dias.
Resistência antimicrobiana: um desafio crescente
A emergência de estirpes multirresistentes de Shigella, particularmente S. sonnei, constitui um dos principais desafios atuais no controlo da Shigelose, limitando progressivamente as opções terapêuticas. Este problema é refletido na atualização da WHO Bacterial Priority Pathogens List de 2024, na qual a Shigella spp. resistente às fluoroquinolonas foi classificada como um patógeno de elevada prioridade (high priority). Esta classificação baseia-se na carga global da doença, no aumento da resistência antimicrobiana, na transmissibilidade e na disponibilidade limitada de opções terapêuticas e de medidas preventivas, tendo como objetivo orientar a investigação e desenvolvimento de novos antibióticos, bem como reforçar as estratégias de vigilância, prevenção e utilização racional dos antimicrobianos. Consequentemente, sempre que possível, o tratamento da Shigelose deve ser orientado pelos resultados microbiológicos e pelos testes de suscetibilidade, reservando a antibioterapia empírica para situações clínicas selecionadas.
O que devemos reforçar na consulta do viajante?
A prevenção continua a ser a medida mais eficaz.
Na consulta pré-viagem importa recordar medidas simples que mantêm toda a sua atualidade:
Já na consulta pós-viagem, qualquer episódio de diarreia com sangue, febre ou dor abdominal significativa após regresso de um destino tropical deve levantar a suspeita de Shigelose e justificar investigação microbiológica adequada.
O papel da Medicina do Viajante
A Medicina do Viajante não termina quando o viajante embarca. A identificação precoce de casos após o regresso, a notificação às autoridades de saúde e a atualização permanente sobre os surtos internacionais são fundamentais para limitar a propagação destas infeções.
O exemplo de Cabo Verde demonstra como um surto localizado pode rapidamente assumir dimensão internacional através da mobilidade dos viajantes. Para os profissionais que realizam consultas de Medicina do Viajante, acompanhar estes alertas deixou de ser apenas uma mais-valia: é parte integrante da prática clínica.
Em resumo
A Shigelose continua a ser uma causa relevante de diarreia do viajante e os surtos recentes lembram-nos que o risco permanece presente, mesmo em destinos turísticos muito populares. A informação epidemiológica atualizada, o aconselhamento pré-viagem e a utilização prudente dos antibióticos continuam a ser as melhores ferramentas para proteger os viajantes e reduzir o impacto desta infeção.
Margarida Adão
IFE Infecciologia, ULS Arrábida, EPE
FICHA TÉCNICA
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