Ano 11| Nr.95 |jan. 2026

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Editorial

 

Atualizações sobre a Chikungunya: o papel emergente da vacinação

A Chikungunya constitui um problema relevante de saúde pública global, assim como um desafio no contexto da Medicina do Viajante. Transmitida por mosquitos do género Aedes, principalmente Aedes aegypti e albopictus, esta arbovirose caracteriza-se por um quadro de febre de início súbito e poliartralgias intensas e incapacitantes, podendo evoluir com sequelas reumatológicas prolongadas ou recorrentes, com impacto funcional significativo, apesar de ser raramente fatal. Determinados grupos apresentam risco acrescido para desenvolver doença grave, incluindo indivíduos com idade superior a 65 anos ou com comorbilidades e recém-nascidos, sobretudo em contexto de infeção materna no periparto.

A mobilidade internacional e as alterações climáticas têm contribuído para a expansão geográfica dos vetores e para a introdução do vírus em novas localizações, favorecendo a ocorrência de transmissão local em áreas previamente não endémicas. Os dados epidemiológicos mais recentes do European Centre for Disease Prevention and Control1mostram que, em 2025, foram notificados globalmente quase 500 000 casos de Chikungunya e 229 mortes atribuíveis a esta doença, afetando maioritariamente as regiões da América do Sul e do Sudeste Asiático, incluindo países de elevada afluência turística.Além disso, foi documentada transmissão autóctone na Europa, registando-se um número de casos sem precedentes nesta região, particularmente em França (788 casos) e em Itália (384 casos).

Na ausência de tratamento antivírico específico para a Chikungunya, as medidas preventivas assumem um papel fundamental no controlo da doença, assentando, até recentemente, essencialmente no controlo vetorial e em medidas de proteção individual contra a picada de mosquito. Contudo, foram recentemente aprovadas pela Agência Europeia do Medicamento duas vacinas contra o vírus Chikungunya: uma vacina viva atenuada, a Ixchiq®, e uma vacina inativada de partículas semelhantes a vírus, a Vimkunya®, que se destinam à imunização ativa de indivíduos com idade igual ou superior a 12 anos, em regime de dose única.   

Estas vacinas representam um importante avanço na abordagem preventiva da doença e ambas já se encontram disponíveis em Portugal, estando atualmente a ser elaboradas as recomendações nacionais para orientar a sua utilização na prática clínica. Entretanto, já começam a surgir orientações de vários países a nível europeu que podem auxiliar na decisão de prescrição destas vacinas. Um exemplo é o documento conjunto da Sociedad Española de Medicina del Viajero e da Asociación Española de Vacunología2, publicado em dezembro de 2025, que propõe uma abordagem baseada na avaliação de risco individual, devendo a vacina ser considerada em viajantes para zonas de surto ativo; em indivíduos com fatores de risco para doença grave ou crónica, caso se considere que o risco de exposição é significativo; e em viajantes com estadias superiores a seis meses em áreas de transmissão local esporádica nos últimos cinco anos ou superiores a um mês, se a transmissão tiver sido sustentada. Importa ainda realçar que, tratando-se de uma vacina viva atenuada, a Ixchiq® está contraindicada em indivíduos imunodeprimidos. Ademais, esta deve ser utilizada com precaução em viajantes com idade igual ou superior a 65 anos e/ou com múltiplas doenças crónicas, devido ao facto de terem sido notificadas reações adversas graves nesta população, assim como em grávidas ou lactantes, devendo preferir-se a utilização da Vimkunya® nestas situações.

Num cenário epidemiológico em constante evolução, a vacinação contra a Chikungunya surge como uma ferramenta de grande utilidade clínica para complementar as medidas preventivas convencionais. A sua incorporação na prática da Medicina do Viajante requer, contudo, uma atualização contínua por parte dos profissionais acerca da evidência científica, das recomendações emergentes e da realidade epidemiológica, de modo a garantir decisões informadas e proteção eficaz dos viajantes.

 

Inês Ludovico Caetano

Médica interna de formação específica em Doenças Infeciosas

Unidade Local de Saúde de Santo António, EPE

 

1 European Centre for Disease Prevention and Control. Chikungunya virus disease worldwide overview, December 2025. Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/en/chikungunya-monthly

2 Sociedad Española de Medicina del Viajero (SEMEVI) & Asociación Española de Vacunología (AEV). Posicionamiento: Indicaciones y pautas de vacunación frente a la infección por el virus Chikungunya para viajeros. 22 de dezembro de 2025. Disponível em: https://amse.es/wp-content/uploads/2025/12/22.12.2025_SEMEVIAEV-IndicacionesVacunaVCH.pdf

 

 

FICHA TÉCNICA

Direção da SPMV 2024-2026

Dr.ª Gabriela de Lacerda Saldanha
Médica de Saúde Pública
Autoridade de Saúde Coordenadora da USP Baixo Tâmega - ULS Tâmega e Sousa
CVI Porto- ULS Santo António
Presidente


Prof. Doutor Nuno Marques
Médico Infeciologista
Vogal Executivo do CA da ULS da Arrábida
Vice-Presidente

Dr.ª Sandra Xará
Médica Infeciologista
Coordenadora do CVI Hospitalar da ULS Santo António
Secretária-Geral

Enf. André Silva
Enfermeiro Saúde Comunitária
Responsável do CVI Hospitalar da ULS Santo António
Vogal Tesoureiro

Dr. Davy Fernandes
Médico de Saúde Pública
Autoridade de Saúde da USP Baixo Tâmega - ULS Tâmega e Sousa
CVI Porto - ULS Santo António
Vogal Secretário

Mesa da Assembleia Geral 

Profª. Doutora Cândida Abreu
Médica Infeciologista
ULS São João
Presidente

Dr. Luís Trindade
Médico Infeciologista
ULS Coimbra
Vice-Presidente

Dr. Ismael Selemane
Médico de Saúde Pública
ULS Litoral Alentejano
Secretário

 

 

Conselho Fiscal 

Prof. Doutor Luís Varandas
Médico Pediatra
ULS São José
Presidente

Dr.ª Sueila Martins
Médica Infeciologista
ULS Trás-os-Montes e Alto Douro
Vice-Presidente

Enf.ª Alice Manuela Pinto
Enfermeira Saúde Comunitária
Serviços de Saúde e de Gestão da Segurança no Trabalho da Universidade de Coimbra
Vogal

  

 

 

 

 

Supervisão e apoio Técnico Informático

SIMPOSIUM DIGITAL

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