Ano 9| Nr.90 |dez 2024
Editorial
Caros(as) Sócios(as),
Ao despedirmo-nos do ano de 2024, convidamos todos a reflectir sobre os desafios e as conquistas que marcaram este período, tanto para a Sociedade Portuguesa de Medicina do Viajante (SPMV) como para a saúde internacional.
Este foi um ano repleto de complexidades, com o aumento das viagens globais, o impacto das alterações climáticas, a vigilância de novas doenças emergentes, os cenários de conflito e os crescentes fenómenos migratórios com forte impacto nas crises humanitárias.
Neste contexto complexo e dinâmico da saúde internacional, com mudanças no cenário epidemiológico, a SPMV continuou a trabalhar no seu papel essencial dirigido para a prevenção, proteção e educação para a saúde dos viajantes internacionais.
Cada consulta realizada, cada orientação prestada e cada decisão tomada pelos profissionais da nossa área contribuiu não só para a segurança dos viajantes, mas também para a saúde global e reforçaram a importância da nossa missão na Saúde Global.
O ano de 2025 apresenta-se como uma oportunidade para inovarmos e ampliarmos a nossa atuação. A SPMV encontra-se empenhada em fortalecer a cooperação entre os seus membros e parceiros nacionais e internacionais, promovendo conhecimento atualizado, iniciativas de formação e um espaço para a troca de experiências e conhecimento, elementos fundamentais que elevam o impacto do nosso trabalho.
Queremos expressar o nosso profundo agradecimento pelo empenho e dedicação de cada sócio ao longo de 2024. Que 2025 seja um ano de crescimento, conquistas e avanços, marcados pelo fortalecimento do papel da nossa sociedade face aos desafios globais.
Desejamos a todos um próspero ano novo, repleto de saúde, realizações e união.
Com os melhores votos,
A Direção da Sociedade Portuguesa de Medicina do Viajante
Gabriela Saldanha | Nuno Marques | Sandra Xará | André Silva | Davy Fernandes
Febre de Oropouche
A febre de Oropouche é uma arbovirose, ou seja, uma doença causada por um vírus transmitido por artrópodes, que pertence ao serogrupo Simbu do género Orthobunyavirus e da família Peribunyaviridae. Este vírus possui um genoma segmentado contendo três segmentos de RNA de sentido negativo e foi isolado pela primeira vez, em 1955, a partir de uma amostra sanguínea de um doente febril, assim como de um pool de mosquitos Coquillettidia venezuelensis, numa aldeia localizada perto do rio Oropouche na ilha caribenha de Trindade. Trata-se de um vírus endémico em toda a bacia amazónica.
No Brasil, foi isolado pela primeira vez em 1960, a partir de uma amostra de sangue do mamífero placentário preguiça (Bradypus tridactylus) capturada durante a construção da estrada Belém-Brasília e de um pool de mosquitos Aedes serratus capturada nas redondezas.
Até aos anos 2000 foram reportados surtos no Brasil, Panamá e Perú. Neste período, também se verificaram infecções em animais na Colômbia e em Trindade e Tobago. Nos últimos 25 anos foram identificados casos humanos na Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Haiti, Panamá e Perú. Em 2023 ocorreram grandes surtos em áreas endémicas e em novas áreas da América do Sul. Em Junho de 2024, Cuba reportou o seu primeiro caso. A dispersão geográfica do vírus Oropouche levou a que a Organização Pan-Americana da Saúde emitisse uma atualização epidemiológica, destacando a importância de fortalecer o diagnóstico, a gestão clínica, a prevenção e as medidas de controle de vectores na região das Américas. Desde janeiro até 25 de novembro do ano de 2024, foram notificados 11.634 casos confirmados de Oropouche em nove países americanos, com o Brasil a registar a maioria dos casos (9.563, incluindo duas mortes). Outros países atingidos são a Bolívia, Colômbia, Cuba, Equador, Guiana e Peru. Além disso, foram registados casos importados nos Estados Unidos (94 casos), no Canadá (2 casos) e ilhas Caimão (1 caso), relacionados a viagens para países com transmissão. Também foram notificados 30 casos importados na Europa.
A transmissão da doença ocorre por picada de mosquitos e existem dois ciclos. O ciclo enzoótico/silvático, onde a preguiça e primatas não-humanos (e possivelmente aves silvestres e roedores) actuam como hospedeiros. O vírus Oropouche já foi isolado em algumas espécies de mosquitos, como Coquillettidia venezuelensis e Aedes serratus. No entanto, o vetor primário é o Culicoides paraensis, conhecido como mosquito-pólvora ou mosquito do mangue. No ciclo urbano, os humanos são os principais hospedeiros do vírus. O mosquito Culicoides paraensis também é o vector principal. O mosquito Culex quinquefasciatus, habitualmente encontrado em ambientes urbanos, também pode transmitir o vírus de forma ocasional.
A maioria das infecções são sintomáticas após um período de incubação de 3 a 10 dias. A apresentação clínica mais frequente é com o início súbito de febre (38-40°C) acompanhada de cefaleias, arrepios, mialgias e artralgias. Também poderá existir fotofobia, tonturas, dor retro-orbitária ou ocular, náuseas e vómitos, exantema maculopapular de início no tronco e com propagação para as extremidades. Menos frequentemente, poderá ocorrer sufusão conjuntival, diarreia, dor abdominal grave e hemorragias (epistaxis, gengivorragias, melenas, menorragias e petéquias). A duração da sintomatologia habitualmente tem uma duração inferior a uma semana (2 a 7 dias). No entanto, em até 60% dos casos, a sintomatologia pode recorrer em alguns dias ou semanas. As alterações analíticas mais comuns são a linfopenia e leucopenia, a elevação da proteína C reactiva (PCR) e a elevação das aminotransferases. Em alguns casos, também poderá existir trombocitopenia.
Pelo exposto, facilmente se depreende, que a clínica é muito semelhante a outras arboviroses como a dengue, chikungunya e zika.
O vírus Oropouche pode ainda causar doença neuroinvasiva (meningite, encefalite ou síndrome Guillain-Barré) estimada em até 4% dos casos, assim como persistência de fraqueza e astenia em alguns doentes até cerca de um mês após o início da sintomatologia.
Realça-se ainda a descrição recente de um caso na Itália, importado de Cuba, de um doente com eliminação vírica prolongada no sémen, pelo que poderá existir um risco acrescido para uma potencial transmissão sexual.
Relativamente ao diagnóstico laboratorial, este vírus pode ser detectado por técnicas de biologia molecular (RT-PCR) em amostras séricas e de LCR na fase aguda da doença. Também existem técnicas serológicas com detecção de IgM e de IgG tanto em fase aguda como em fase de convalescença de forma a confirmar o diagnóstico, através de, uma seroconversão ou um aumento de pelo menos de 4x nos títulos de anticorpos.
O tratamento é sintomático, não existindo antivíricos específicos. A prevenção assenta na evicção das picadas de mosquitos, bem como na adopção de medidas de controlo vectorial e de programas de vigilância entomológica, clínica e epidemiológica.
Nuno Marques
Assistente Graduado Sénior de Doenças Infecciosas com competência em Medicina do Viajante
ULS Arrábida, EPE
Faculdade de Medicina de Lisboa
Vice-Presidente da SPMV
FICHA TÉCNICA
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