Ano 11| Nr.97 |Mai. 2026

O Papel da Farmácia Comunitária na Consolidação da Medicina do Viajante
A Medicina do Viajante enfrenta hoje desafios sem precedentes. As viagens para destinos exóticos, de formas mais autênticas, mais autónomas, mais envolvidas na cultura local, por maiores períodos do que apenas a semana de pacote turístico em resort, estão mais acessíveis e possíveis para cada vez mais pessoas.
Ao mesmo tempo, a globalização e as alterações climáticas têm ditado a expansão geográfica de vetores como o Aedes aegypti e o Aedes albopictus, tornando doenças como a Dengue, Zika e Chikungunya ameaças constantes, não apenas em destinos exóticos, mas também em latitudes anteriormente consideradas seguras.
Neste cenário, o farmacêutico comunitário emerge como um agente de saúde pública estratégico. Sendo, muitas vezes, o último elo de ligação com o sistema de saúde antes da partida do viajante, a sua intervenção vai muito além da logística da dispensa: é um ato de consulta e capacitação.
O Farmacêutico no Apoio à Decisão
O papel deste profissional foca-se na promoção da literacia em saúde, complementando as informações médicas obtidas na consulta do viajante, ajudando o utente a decifrar a complexidade do risco em função do destino, da duração da estadia e do perfil clínico individual. É responsabilidade do farmacêutico garantir que o viajante está apto a executar medidas preventivas não farmacológicas, que continuam a ser a primeira linha de defesa contra arboviroses para as quais ainda não existe vacinação universal ou quimioprofilaxia.
Farmacologia dos Repelentes: Do "Gold Standard" à Proteção Têxtil
O aconselhamento sobre repelentes exige um conhecimento da farmacocinética e da segurança dos ativos. É nesta base que pode ser necessário ir além das recomendações mais conservadoras dos fabricantes, sobrepondo o conhecimento científico atual dos ativos em causa. Não esquecer que, a maioria dos repelentes são produtos de venda livre podendo ser adquiridos sem aconselhamento farmacêutico. Deve o médico da Medicina do Viajante recomendar que estes produtos sejam adquiridos na farmácia garantindo a continuidade dos cuidados de saúde preconizados na consulta. O mais importante é aconselhar com segurança, com suporte técnico-científico, otimizando a eficácia do repelente utilizado e ativo escolhido, principalmente em zonas de alta endemicidade em que o equilíbrio risco-benefício pode ser uma questão.
O DEET (N,N-dietil-metil-toluamida), por exemplo, permanece como o padrão de referência devido ao seu amplo espetro de ação, décadas de uso clínico e elevado perfil de segurança. Em concentrações de 30% a 50%, oferece uma proteção robusta por várias horas, sendo a escolha primordial. Contudo, neste caso, as recomendações gerais para o uso pediátrico de formulações contendo DEET (não recomendado em crianças com menos de 12 anos) e as recomendações da Sociedade Portuguesa de Pediatria (possíveis concentrações de 10% dos 6 aos 12 meses, e até 30% dos 12 meses aos 12 anos), diferem. A recomendação médica deve prevalecer, e cabe ao farmacêutico capacitar-se de informação atualizada.
Outro ponto em que o farmacêutico pode ter impacto, é reforçando a importância da Permetrina para a impregnação de tecidos. O tratamento de roupas e redes mosquiteiras com este composto aumenta exponencialmente a segurança do viajante, especialmente durante o repouso ou em áreas de selva, onde a pressão de picada é extrema.
A Correta Aplicação: Onde a Eficácia e a Segurança se Cruzam
Um dos maiores riscos na prevenção de picadas reside na má utilização dos produtos. O farmacêutico deve instruir o viajante sobre a técnica correta: a aplicação deve ser uniforme na pele exposta, evitando mucosas e feridas. Um ponto crítico de aconselhamento é a interação com fotoprotetores. A evidência demonstra que a aplicação simultânea pode alterar a absorção e eficácia dos ativos. A recomendação clínica é clara: o protetor solar deve ser aplicado primeiro, aguardando-se cerca de 20 minutos antes da aplicação do repelente. Esta pausa permite a formação da camada protetora do SPF e garante que o repelente mantém a sua volatilidade ideal para afastar o vetor.
Em suma, a farmácia comunitária é o braço operacional da Medicina do Viajante no terreno. Através de um aconselhamento técnico rigoroso e de uma vigilância ativa, o farmacêutico não só previne a patologia individual, como contribui para a segurança sanitária global.
Ermelinda Fernandes
FICHA TÉCNICA
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